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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Dois Brasileiros

O bom amigo Vini me passou uma pérola que até outro dia, estava escondida, pelo menos para mim. Me perguntou se eu curtia Ney Matogrosso, e eu respondi que conhecia pouco. Já ouvi uma coisa daquele álbum dele com o Pedro Luís e A parede, mais a sua versão de menino do Rio. E só.

- Cara, ouve um disco dele que se chama "Um Brasileiro".

- É bom?
- O disco todo são regravações de músicas do Chico. Quer que eu te passe?
- Nossa, demorou.

Não foi exatamente assim o diálogo, mas o que importa é que o álbum veio parar em minhas mãos. Só que ficou algum tempo esquecido na HD, já que veio num formato estranho que não era gravável em CD. Depois de algum tempo reorganizando minhas músicas, me deparei com "Um Brasileiro". E ai?

Aí o bicho pegou, porque o disco é muito foda. Ney Matogrosso escolheu a dedo um repertório impecável. De Construção a Não existe pecado ao sul do Equador, o cantor percorre grandes momentos do nosso poeta, sem perder o gingado. Claro que as versões são à moda de Ney, e esse que é o tempero da Baiana. O álbum é original e ao mesmo tempo fiel à obra. Inclusive, Chico faz participação em Até o Fim, com a sua voz fanha e "Chinfrim". Destaque ainda para a versão de A banda, e de Corrente.

Se a proposta é boa, o disco é melhor ainda. Eu poderia escrever mil linhas, que nenhuma descrição seria melhor que o próprio disco. Deixo as palavras para Chico, e passo a bola para o Ney. Ou melhor, pra você.

Download Ney Matogrosso – Um Brasileiro (1996)

  1. Construção
  2. Moto-contínuo
  3. Cala a Boca, Bárbara
  4. Mil Perdões
  5. Valsinha
  6. Minha História (Gesubambino)
  7. Soneto
  8. Roda Viva
  9. Corrente
  10. Bom Conselho
  11. Partido Alto
  12. Homenagem ao Malandro
  13. Até o Fim
  14. Almanaque
  15. Acalanto Para Helena
  16. A Banda
  17. Não Existe Pecado ao Sul do Equador

Abraço!

Sugestão de Playlist:

  1. Ney Matogrosso – Cala a Boca, Bárbara
  2. Beatles – I Want You (She's so Heavy)
  3. Radiohead – Creep
  4. Chico Buarque – Homenagem ao Malandro
  5. Led Zeppelin - What Is and What Should Never Be

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Chico e Bethânia

Olá comparsa,
Conforme prometido, sigo confabulando sobre os discos citados num post anterior. Desta vez, Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo. Belo disco, lançado em 75, no auge da ditadura militar brasileira.

Confesso que nunca manifestei muito interesse por Bethânia. Pra mim, sempre foi a irmã do Caetano, que fazia música de velho. Enorme engano, eu sei. Mas foi assim também com a Gal e a Elis. Nunca me interessei até ouvir, assim, por acidente. Feliz acidente, o dia em que resolvi descolar Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo da prateleira.

Chico está impossível nesse disco, inflamado pela maneira peculiar como canta a Bethânia. Ela, por sua vez, interpreta Chico e outros compositores, com sua voz vibrando de maneira estonteante e carregada. Ela é foda. O repertório também.

De um lado, Chico desfere clássicos como Gota d’água e Com açúcar, com afeto, entre outros. Bethânia rebate com Camisola do Dia e Foi assim. Chico presenteia Bethânia com a erótica Sem Açúcar (composição dele para a voz dela), e ela agradece cantando Gita como Raul Seixas jamais poderia imaginar. E assim segue o disco, passeando entre o romântico e o libidinoso, numa combinação perfeita.

Sem açúcar, por exemplo, encaixaria-se perfeitamente numa das crônicas de Nelson Rodrigues, enquanto Sonho impossível é uma das poesias mais belas que já vi na vida (veja bem, eu, que não entendo lhufas de poesia). E ainda sobra espaço para você, leitor (a), fazer um solo em Tanto Mar na versão instrumental. O meu ficou ótimo (há!).

Sem maiores rasgações de seda, Chico e Bethânia juntos são excelentes. Esse é um puta disco pra quem gosta de MPB, Bossa Nova e coisas desse gênero. A música é perfeita, e as letras nada deixam a desejar. Vá correndo chupar essa manga, e deixe o seu comentário.
PS: Ainda falta falar de Getz/Gilberto, e pretendo ainda, conforme sugeriu o João, pincelar um pouco sobre Road to escondido, a parceria entre Clapton e J.J Cale.

Abraço!

Sugestão de Playlist:

Chico Buarque e Maria Bethânia – Sem Fantasia
Eric Clapton & J.J Cale – Heads in Georgia
Turbonegro – Back to Dungaree High
Propagandhi – With Friends like These, who the fuck needs COINTELPRO?
Guess Who – American Woman

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

O Carioca

Dia desses, resolvi procurar alguma coisa nova. Estava ávido por uma música diferente, inquieto com os mesmos artistas e bandas, e saturado com as notícias recorrentes da tragédia no metrô que a CBN veiculava. Intrépido, mergulhei de cabeça nas gavetas da minha cômoda, e comecei a vasculhar o invasculhável. No meio da algazarra, me surge um CD. O que eu estava procurando sem saber. Acabei por encontrar o novo no velho. O bom e velho Chico Buarque.
No meio das minhas memorabilias engavetadas, encontrei o Carioca, disco novo do Chico, que por algum motivo eu mal tinha escutado. Talvez por preconceito, depois de ter ouvido tantas críticas , ou por esquecimento mesmo. O fato é que ele estava ali, na hora certa, justamente alguns dias depois de eu ter escutado a Ópera do Malandro em vinil, que dispensa comentários.
Comecei a ouvir Carioca com um pé atrás, e devo dizer: realmente é um disco difícil de se ouvir. É daqueles que se pula algumas faixas, mas não é de todo o mal. Pra falar a verdade, tem algumas coisas bem legais. O grande problema do disco é o passado do seu autor.
Já virou chavão dizer que o Chico é unanimidade e que toda unanimidade é burra. A coisa chegou a tal ponto que as expectativas superam o realizável. Hoje, qualquer coisa menor que "construção", por exemplo, é lixo. As expectativas superaram o realizável, ainda mais depois de anos sem produzir nada. Porra! não é possível compor pérolas a vida toda.
Eu já nasci no tempo em que as pérolas estavam consagradas. Conheço um bom resumo da obra, mas não a sua plenitude. E meu amigo Didi que me corrija se eu estiver errado, mas o Chico já fez outras coisas menos brilhantes.
Apesar das críticas, Carioca é um disco coeso. Não tem nenhuma composição de arregalar os olhos mas também nada para se torcer o nariz. As faixas se relacionam bem. Há, claro, algumas exceções, como "Ode aos ratos", que não se parece com nada do disco, mas é bacana. Mostra o lado "moderninho" do nosso Chico. Há também coisas bonitas como "as atrizes" e "Ela faz cinema". Tanto as melodias quanto as letras são bem elaboradas. Talvez um pouco menos harmônicas, mas sem dúvida interessantes.
É injusto dizer que o Chico perdeu o dom, que não sabe mais fazer música, que seu tempo já passou. Isso, porque niguém que o criticou - eu, inclusive - tem propriedade suficiente para julgá-lo. Carioca pode não ter sido o seu auge, mas definitivamente não é o seu fim.
A turnê do disco acabou em São Paulo, e eu perdi. Mais um show que talvez eu nunca veja na vida, junto com muitos outros, por motivos geográficos ou de óbito. Mas esse não. Besteira minha foi acreditar nos outros. Melhor ouvir antes de falar. Aliás, se eu fosse você, não me escutava e ia logo tirar minhas próprias conclusões.

Abraço!